Estudo revela como dois aminoácidos podem ajudar o câncer de próstata a crescer e resistir ao tratamento
- Redação AFTV
- há 2 dias
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Dois aminoácidos presentes naturalmente em alimentos ricos em proteínas entraram no radar dos pesquisadores que estudam o câncer de próstata.
Um novo estudo publicado na revista científica Nature Metabolism identificou um mecanismo pelo qual a isoleucina e a valina podem ser utilizadas pelas células tumorais para sustentar a produção de colesterol e manter ativa uma das principais vias envolvidas no crescimento do câncer de próstata.
A descoberta é importante principalmente porque ajuda a explicar como alguns tumores conseguem se adaptar à falta de hormônios provocada pelo tratamento.
Mas existe um cuidado fundamental: o estudo não demonstra que consumir proteínas ou suplementos de BCAA cause câncer de próstata.
A pesquisa investigou o metabolismo de células tumorais e realizou experimentos principalmente em células, modelos animais e amostras de tumores humanos.
## O que os pesquisadores descobriram?
Isoleucina e valina pertencem ao grupo dos aminoácidos de cadeia ramificada, conhecidos como BCAAs.
Eles são aminoácidos essenciais, o que significa que o organismo precisa obtê-los através da alimentação.
Ao investigar células de câncer de próstata, os pesquisadores descobriram que a quebra de isoleucina e valina produz uma molécula chamada propionil-CoA.
Nos experimentos celulares, esses dois aminoácidos responderam juntos por aproximadamente 70% do pool de propionil-CoA e propionilcarnitina encontrado nas células estudadas.
E foi justamente essa molécula que revelou uma conexão inesperada.
## Dos aminoácidos para o colesterol
A propionil-CoA não funcionou apenas como um produto intermediário do metabolismo.
Os pesquisadores observaram que ela também atua como um sinal dentro da célula tumoral.
Esse sinal ajuda a estabilizar uma proteína chamada SREBP2, importante reguladora da produção de colesterol.
Com a SREBP2 mais ativa, as células aumentaram a síntese e o armazenamento de colesterol.
E por que isso importa no câncer de próstata?
Porque o colesterol também pode servir como matéria-prima para a produção de hormônios esteroides, incluindo andrógenos.
## O tumor pode produzir seus próprios andrógenos
Grande parte dos cânceres de próstata depende da sinalização do receptor de andrógeno para crescer.
Por isso, uma das estratégias utilizadas no tratamento da doença é reduzir a ação desses hormônios.
O problema é que alguns tumores eventualmente conseguem se adaptar.
O novo estudo sugere que o metabolismo de isoleucina e valina pode participar desse processo.
A sequência observada pelos pesquisadores pode ser resumida desta maneira:
Isoleucina e valina ↓ Propionil-CoA ↓ Ativação da SREBP2 ↓ Maior produção de colesterol ↓ Produção de andrógenos ↓ Manutenção da sinalização do receptor de andrógeno
Esse mecanismo pode ajudar determinadas células tumorais a sobreviver mesmo quando estão submetidas à privação hormonal utilizada no tratamento.
## Relação também apareceu em cânceres mais avançados
Os pesquisadores analisaram dados provenientes de tumores humanos e encontraram alterações compatíveis com maior utilização dessa via metabólica em doenças avançadas.
Tumores metastáticos apresentaram mudanças na expressão de genes relacionados à entrada e ao metabolismo dos BCAAs e à degradação da propionil-CoA.
Os pesquisadores também observaram níveis maiores de propionilcarnitina em tecidos tumorais em comparação com tecido prostático saudável.
Além disso, níveis maiores desse metabólito apresentaram associação com maior pontuação de Gleason, utilizada para avaliar características relacionadas à agressividade do câncer de próstata.
Esses resultados ajudam a mostrar que o mecanismo observado em laboratório pode ter relevância para a doença humana.
Ainda assim, isso não significa que uma intervenção alimentar já tenha sido comprovada em pacientes.
## O que aconteceu quando os pesquisadores reduziram isoleucina e valina?
Essa foi uma das partes mais interessantes do experimento.
Camundongos que receberam células de câncer de próstata foram submetidos a uma dieta com restrição de isoleucina e valina.
Após sete semanas, os animais submetidos à restrição apresentaram redução importante do crescimento tumoral em comparação com o grupo que recebeu a dieta controle.
Os tumores também apresentaram redução de marcadores relacionados à proliferação celular.
Em outros experimentos, diminuir a produção de propionil-CoA também tornou determinadas células de câncer de próstata resistentes à castração mais sensíveis à privação de andrógenos.
Isso levanta a possibilidade de que essa via metabólica possa futuramente se tornar um alvo terapêutico.
## Então devemos evitar BCAA?
Não.
Essa conclusão não pode ser retirada do estudo.
Isoleucina e valina são aminoácidos essenciais e estão naturalmente presentes em diversos alimentos ricos em proteínas, incluindo carnes, peixes, ovos e produtos lácteos.
Eles também fazem parte de suplementos de BCAA utilizados principalmente no ambiente esportivo.
O estudo não demonstrou que consumir esses alimentos ou suplementos provoque câncer de próstata.
Também não demonstrou que reduzir BCAA na alimentação previna ou trate câncer em seres humanos.
Os experimentos de restrição alimentar foram realizados em animais.
Transformar essa descoberta em uma estratégia nutricional para pacientes exigirá estudos clínicos específicos que avaliem não apenas possíveis benefícios, mas também segurança, composição corporal, massa muscular e estado nutricional.
## Por que a descoberta é importante?
Talvez a maior contribuição do estudo não esteja em criar imediatamente uma nova dieta contra o câncer.
Ela está em revelar uma possível vulnerabilidade metabólica das células tumorais.
Se determinados cânceres de próstata dependem dessa sequência envolvendo isoleucina, valina, propionil-CoA, SREBP2, colesterol e andrógenos, pesquisadores podem tentar encontrar maneiras de interromper partes desse processo.
Isso poderia ser feito, no futuro, por medicamentos capazes de bloquear enzimas específicas dessa via metabólica ou eventualmente por intervenções nutricionais cuidadosamente controladas.
Tudo isso ainda precisa ser investigado.
## O metabolismo está se tornando uma nova fronteira contra o câncer
Durante muito tempo, a pesquisa sobre câncer concentrou grande parte da atenção nas mutações genéticas responsáveis pelo crescimento tumoral.
Hoje sabemos que existe outra camada igualmente importante: o metabolismo.
Uma célula cancerosa precisa encontrar energia, matéria-prima e mecanismos para continuar crescendo em condições extremamente desfavoráveis.
O novo trabalho mostra que células do câncer de próstata podem reorganizar o metabolismo de aminoácidos para produzir uma molécula que, por sua vez, ativa a fabricação de colesterol e ajuda a manter a sinalização hormonal necessária para sua sobrevivência.
É uma espécie de circuito metabólico de adaptação.
E compreender esse circuito pode abrir novos caminhos para tentar interrompê-lo.
Por enquanto, portanto, a mensagem não é “pare de consumir BCAA”.
A descoberta é outra: pesquisadores encontraram uma nova maneira pela qual determinadas células de câncer de próstata conseguem transformar nutrientes disponíveis no organismo em uma vantagem para continuar crescendo e resistindo ao tratamento.
E essa nova vulnerabilidade metabólica agora poderá ser investigada como possível alvo para futuras terapias.
## Fonte científica
Li Z, Liu S, Jin W, et al. Isoleucine and valine promote prostate cancer progression via propionyl-CoA-mediated cholesterol metabolism. Nature Metabolism. 2026;8:1772–1790.
Publicado em: 20 de agosto de 2026.
DOI: 10.1038/s42255-026-01583-z



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