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Robô vascular começa a entrar em uso comercial na Europa e prepara caminho para cirurgias auxiliadas por IA

  • Foto do escritor: Redação AFTV
    Redação AFTV
  • 26 de ago.
  • 6 min de leitura

Um robô capaz de manipular cateteres e fios-guia dentro dos vasos sanguíneos enquanto o médico permanece afastado da radiação começou a avançar para uma nova etapa: o uso comercial.

A empresa lituana Sentante anunciou em 25 de agosto de 2026 o início da implantação comercial de sua plataforma robótica para cirurgia vascular e radiologia intervencionista.

O sistema recebeu marcação CE em maio de 2026, permitindo sua comercialização dentro das indicações autorizadas no mercado europeu.

Mas talvez a parte mais interessante da tecnologia esteja além da própria robotização.

Cada procedimento pode produzir dados sobre movimentos dos instrumentos e forças encontradas durante a navegação vascular.

A empresa pretende utilizar esse histórico para desenvolver, futuramente, sistemas de inteligência artificial capazes de auxiliar os médicos durante os procedimentos.

## Como funciona o robô Sentante?

Diferentemente da imagem tradicional de um robô cirúrgico realizando sozinho uma operação, o Sentante é um sistema de teleoperação.

O médico continua responsável pelo procedimento.

Ao lado do paciente fica uma unidade robótica responsável por movimentar os dispositivos endovasculares.

O especialista trabalha em uma estação remota, afastada da área onde ocorre a exposição aos raios X utilizados para visualizar os vasos.

Quando o médico avança, recua ou gira os instrumentos na estação de controle, o robô reproduz esses movimentos no paciente.

O sistema consegue manipular simultaneamente até três dispositivos endovasculares, como um fio-guia e dois cateteres.

## Médico consegue sentir a resistência dentro dos vasos

Um dos diferenciais mais interessantes é o feedback háptico.

Durante um procedimento convencional, o médico utiliza a sensibilidade das mãos para perceber a resistência encontrada pelo fio-guia ou pelo cateter enquanto navega pelos vasos sanguíneos.

Preservar essa sensação em um sistema robótico é tecnicamente complicado.

O Sentante utiliza sensores para medir as forças encontradas pelos instrumentos no paciente e transmitir essa resistência de volta aos controles utilizados pelo médico.

Na prática, o especialista consegue sentir parte da resistência encontrada pelo dispositivo mesmo estando fisicamente afastado da mesa de procedimento.

Essa informação pode ser importante para evitar a aplicação excessiva de força durante a navegação vascular.

## Robô funciona com cateteres e fios-guia convencionais

Outro diferencial é a compatibilidade com equipamentos já utilizados nos hospitais.

Segundo a empresa e estudos publicados sobre a plataforma, o Sentante trabalha com diferentes fios-guia e cateteres disponíveis comercialmente.

O sistema suporta fios-guia de 0,014, 0,018 e 0,035 polegada e cateteres dentro de diferentes dimensões.

Isso reduz a necessidade de substituir todo o conjunto de instrumentos por dispositivos proprietários desenvolvidos exclusivamente para o robô.

Existem componentes descartáveis específicos do próprio sistema para realizar a interface estéril com os instrumentos, mas cateteres e fios-guia convencionais podem ser utilizados.

## Um problema invisível das cirurgias endovasculares: radiação

A redução da exposição ocupacional é uma das principais justificativas para esse tipo de tecnologia.

Procedimentos endovasculares normalmente utilizam fluoroscopia, uma técnica de imagem baseada em raios X que permite acompanhar em tempo real a movimentação dos instrumentos dentro dos vasos.

Para reduzir a exposição, médicos e profissionais utilizam equipamentos de proteção, incluindo aventais de chumbo.

Mesmo assim, profissionais que realizam esses procedimentos repetidamente podem acumular exposição ocupacional ao longo da carreira.

Os aventais de proteção também são pesados e podem contribuir para sobrecarga musculoesquelética após anos de trabalho.

Ao permitir que o médico opere de uma estação afastada da fonte de radiação, a robótica tenta atacar os dois problemas ao mesmo tempo.

## Teste realizou 18 procedimentos de forma totalmente robótica

Um estudo pré-clínico publicado em 2026 na revista científica CardioVascular and Interventional Radiology avaliou o sistema Sentante em seis suínos.

Foram realizados 18 procedimentos endovasculares diferentes.

Entre eles estavam:

• implante de stents; • angioplastias; • embolizações; • angiografias; • intervenções em artérias renais, vertebrais, mesentéricas e ilíacas.

Todos os 18 procedimentos foram concluídos roboticamente sem necessidade de conversão para manipulação manual durante a intervenção.

A exposição do operador à radiação ficou próxima de zero.

A dose registrada foi de aproximadamente 0,16 microsievert, com variação de 0,14 a 0,40 microsievert.

## E o feedback tátil funcionou?

Os pesquisadores também avaliaram a qualidade da sensação transmitida ao médico.

O feedback háptico foi classificado como “muito bom” em três dos modelos testados e como “razoável” nos outros três.

Isso mostra que a tecnologia ainda pode evoluir, mas também demonstra que foi possível transmitir informações de resistência dos instrumentos durante os procedimentos.

Após as intervenções, as angiografias não mostraram sinais de lesões vasculares.

Na análise posterior dos vasos, entretanto, foram identificados traumas mínimos em três dos 16 vasos-alvo avaliados.

Esse detalhe é importante porque mostra que o estudo apresentou resultados promissores, mas não deve ser interpretado como demonstração de risco zero.

## Tecnologia já foi testada em seres humanos

O desenvolvimento também avançou além dos experimentos em animais.

Um estudo prospectivo de primeira utilização em humanos avaliou o Sentante em procedimentos endovasculares periféricos.

O trabalho foi publicado em 2026 no JACC: Cardiovascular Interventions.

A pesquisa representa uma etapa importante porque permite avaliar a tecnologia em condições clínicas reais antes de uma adoção comercial mais ampla.

Os resultados desses estudos contribuíram para o processo de desenvolvimento e validação da plataforma.

## O próximo passo pode ser a inteligência artificial

É aqui que a história ganha uma dimensão diferente.

Um procedimento endovascular realizado por um especialista contém uma enorme quantidade de informação que normalmente não é registrada de maneira estruturada.

O médico movimenta um fio-guia alguns milímetros.

Sente resistência.

Recua.

Gira o dispositivo.

Muda o ângulo.

Avança novamente.

Cada uma dessas pequenas decisões faz parte da experiência acumulada durante anos de treinamento.

Quando o procedimento passa por um sistema robótico, esses movimentos podem se transformar em dados.

O Sentante registra informações cinemáticas relacionadas ao movimento dos dispositivos e dados de resistência encontrados durante a navegação.

Com milhares de procedimentos, seria possível construir uma espécie de biblioteca digital da maneira como especialistas navegam pelo sistema vascular.

## Do robô controlado pelo médico para a “IA física”

A Sentante chama essa estratégia de “Physical AI”, ou inteligência artificial física.

A ideia é utilizar os dados gerados pelos procedimentos para desenvolver algoritmos capazes de reconhecer situações e auxiliar o especialista.

No futuro, sistemas desse tipo poderiam, por exemplo, ajudar a identificar movimentos incomuns, forças excessivas ou padrões associados a determinadas etapas de um procedimento.

Mas é fundamental separar presente e futuro.

O Sentante comercializado atualmente não é um cirurgião autônomo.

O médico continua controlando os instrumentos.

As funções mais avançadas baseadas em inteligência artificial são apresentadas pela própria empresa como funcionalidades futuras.

## Cirurgia remota pode ser outro passo

A teleoperação também abre outra possibilidade importante.

Se médico e paciente não precisam necessariamente estar no mesmo espaço físico, no futuro um especialista poderia participar de procedimentos realizados em hospitais localizados a grandes distâncias.

A Sentante já realizou demonstrações experimentais envolvendo procedimentos remotos a longas distâncias, incluindo testes relacionados ao tratamento de AVC.

Essa aplicação poderia ser especialmente relevante em regiões que não possuem especialistas em procedimentos neurovasculares ou endovasculares complexos.

Existem, porém, desafios importantes envolvendo latência das redes, segurança da comunicação, infraestrutura hospitalar, regulamentação e protocolos para situações de emergência.

## Uma nova geração de salas cirúrgicas

A chegada comercial do Sentante é interessante porque representa mais do que simplesmente colocar um braço robótico ao lado do paciente.

Ela transforma um procedimento tradicionalmente manual em um procedimento digital.

Movimento, força e resistência podem passar a ser registrados.

Isso permite analisar como especialistas trabalham, comparar técnicas e eventualmente treinar algoritmos utilizando dados produzidos durante procedimentos reais.

A evolução pode acontecer em etapas.

Primeiro, o robô reproduz exatamente os movimentos do médico.

Depois, algoritmos podem começar a alertar e auxiliar.

E somente muito mais adiante poderia surgir algum nível maior de automação.

Se essa evolução realmente acontecer, a sala de cirurgia endovascular poderá se tornar um dos ambientes em que robótica e inteligência artificial mais profundamente se encontram.

Por enquanto, entretanto, a principal mudança já começou:

o robô saiu da fase exclusivamente experimental e começou sua entrada no mercado europeu.

## Fontes

Sentante — “Sentante takes physical AI to market, beginning commercial rollout in vascular surgery and interventional radiology”. Agosto de 2026.

CardioVascular and Interventional Radiology — “Evaluation of Fully Teleoperated Robotic Endovascular Interventions with Haptic Feedback: The SENTANTE Endovascular Robotic System”. 2026. DOI: 10.1007/s00270-026-04375-w.

JACC: Cardiovascular Interventions — “Fully Teleoperated Peripheral Endovascular Interventions With a Novel Robotic System: A First in Human Study”. 2026.

PubMed — Evaluation of Fully Teleoperated Robotic Endovascular Interventions with Haptic Feedback.

European Commission / CORDIS — Sensory Endovascular Robot (SER), projeto de desenvolvimento e validação do sistema Sentante.

Sentante — documentação técnica do Endovascular Robotic System.

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